Roupa e Memória: Minhas últimas botas de couro

Em 2007, eu usava aquelas botas de camurça com legging e me sentia super bem. Era meu visual chique. Usei essa combinação junto com um vestidinho curto de mangas compridas na festa de 15 anos de uma amiga e não me arrependo. Aquela era eu e eu estava muito confortável. Demorei um tempo até comprar outro par de botas, o que aconteceu em 2010. Na época, não foi fácil encontrar o modelo que eu queria, nas lojas só achava botas cheias de fivelas e tachas. Eu queria um modelo de cano alto, abaixo do joelho, sem salto e sem adornos. Com certo custo, encontrei, em uma loja no shopping, junto com meus pais. Um par de botas de couro legítimo. Não me orgulho, mas também não me arrependo. Aquela era eu e as botas me acompanharam por quase sete anos.

Me tornei vegetariana em 2011. Depois disso, cheguei a comprar alguns itens de couro, apesar de ter passado a observar mais e tomar mais cuidado com o que consumia. Mas eu não compraria outra bota desse tipo. O calçado, apesar de clássico, não acompanhou as tendências que surgiram com o tempo. Todo mundo usou sneakers e bota over-the-knee. Continuei lá, vestindo minhas botinhas com a calça jeans pra dentro. Precisei trocar o solado algumas vezes e perdi a conta de quantas vezes elas tiveram que ser engraxadas. Elas sabem de cor todos os caminhos que eu fiz nesses últimos anos. Só não conheceram meus verões.

Em 2017, eu me despeço delas. Assim que o tempo começou a esfriar, tirei as botas do armário e vesti a velha combinação para ir à aula e ao estágio. O solado descolou pela última vez. Dessa vez foi grave e o couro já estava rasgando. Acho que ela poderia ter durado muito mais, mas confesso que a vida útil dela foi, de fato, bem vivida. Passou por pedra, terra e asfalto. Eu a levei (ou ela me levou?) pra lugares lindos e pra momentos chatos também. O couro com o tempo vai ficando macio, e mais confortável de usar. De calçado “de sair”, se tornou meu look do dia-a-dia. Mas agora, depois de sei lá quantos quilômetros rodados, me despeço da minha última bota de couro.

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Maio de 2017, um de nossos últimos passeios. Terminei de gastá-las bem aí nesse chão de pedras. Foto: Laura Freesz ❤

Meu desafio agora é procurar por calçados verdadeiramente ecológicos, não apenas “sintéticos”. Estou tentando ter hábitos de consumo mais sustentáveis – mesmo que ainda cometa deslizes. Vou aprendendo aos poucos e aplicando mudanças no dia-a-dia. Minhas botas foram feitas a partir da morte de um animal, mas optei por cuidar delas e mantê-las no armário, assim, não senti a “necessidade” de adquirir um novo par, ainda que não fosse feito de couro. Mais do que escolher peças “ecológicas”, antes de tudo é importante saber o que a gente já tem e cuidar desses objetos, porque nem sempre precisamos de outras peças.

 

 

Audrey Hepburn: do cinema para a moda

Quando eu fiz meu TCC de moda lá em 2014, passei por temas diversos até chegar a conclusão de que não existiria melhor tema pra mim, naquele momento. Desde o início da faculdade, a Audrey Hepburn foi minha referência. Não existiria melhor forma de fechar aquele ciclo do que falando da minha atriz favorita de sempre. E meu trabalho de conclusão de curso foi maravilhoso de se fazer. No curso de moda que eu fiz, a gente tem que fazer a parte teórica mas também tem que desenvolver uma mini coleção de roupas. Acho que TCC é complicado pra todo mundo, e dá trabalho mesmo, mas quando você encontra um tema pelo qual é apaixonado, fica tudo mais leve. Confesso que até tenho saudade da época, de quando eu precisei mergulhar fundo na história e nos filmes da Audrey.

Hoje, 4 de maio, é a data em que, há 88 anos, nasceu a eterna Bonequinha de Luxo. Enquanto eu pesquisava para o meu trabalho, 3 anos atrás, aprendi algumas coisas sobre “mitos”: Mitos não morrem, porque continuam sendo lembrados por gerações. A Audrey é um desses mitos criados pela indústria do cinema. Com o estilista Hubert de Givenchy, construiu um estilo atemporal e usou figurinos icônicos. No meu trabalho, falei sobre a influência que o cinema tem para a moda. A criação de figurinos marcantes faz com que o jeito de se vestir de determinada personagem saia das telas e ganhe os guarda-roupas dos espectadores. Além disso, eu analisei o figurino de 4 filmes, compreendendo a mensagem que cada um deles transmitia. Eu sou completamente apaixonada por figurinos, gosto de imaginar como cada roupa foi pensada para ajudar na compreensão das histórias. Nos filmes que eu escolhi, os figurinos são elementos importantíssimos para mostrar a personalidade, transformação e crescimento das personagens.

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Cinderela em Paris (1957)

Em “Bonequinha de Luxo”, as cores usadas em cada look da Holy Golightly combinam com o contexto das cenas. Alguns elementos revelam a excentricidade da Holy, combinada a uma elegância marcante. Já nos filmes Sabrina e Cinderela em Paris, as roupas das personagens no início são discretas, e depois  elas passam por transformações e mudam de estilo. Sabrina passa uma temporada em Paris e volta com um visual mais “adulto”, já a Jo, de Cinderela em Paris, começa o filme como uma discreta vendedora de livros e termina como uma top model, com looks escolhidos pela equipe da revista na qual ela vai trabalhar. Em My Fair Lady, a Audrey interpreta a Eliza, uma florista humilde que é usada como parte de uma aposta e recebe aulas de etiqueta. Assim, passa a se vestir como uma moça “da alta sociedade”.  Não entrarei em detalhes sobre cada história, porque acredito que vale muito a pena assistir cada um desses filmes.

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Bonequinha de Luxo (1961)

Das pesquisas feitas, surgiu a coleção “Audrey Hepburn: Do cinema para a moda”, trabalho que guardo com muito orgulho e carinho. Tive a ajuda de pessoas muito importantes, que fizeram o caminho do TCC ser ainda mais especial: Minha família, meu orientador Fred Simão e minhas amigas (5 delas, inclusive, toparam ser as minhas “Audreys” na passarela, deixando o desfile e as roupas ainda mais bonitos <3). O resultado tá nesses registros aí embaixo 🙂

 

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Amanda Miranda, look inspirado em Cinderela em Paris. Foto: Débora Agostini

Mesmo com os desafios, a coleção foi uma delícia de executar. Minha parte favorita foram as estampas: cada uma tem elementos simples que falam sobre os filmes que representam. 🙂 Decidi revisitar a coleção neste post como uma forma de homenagear o meu ícone de estilo favorito. Essa não é a primeira vez que falo sobre a Audrey por aqui: no ano passado eu contei um pouco sobre a história dela aqui.

Fiquem com uma das minhas cenas favoritas da vida ❤ :

Minha moda não é sustentável

Voltei incomodada e reflexiva. No ano passado, eu falei aqui sobre o Fashion Revolution Day, a campanha que rola no dia 24 de abril no mundo todo para lembrar todo mundo de ter mais consciência no consumo de moda, colocando foco naqueles problemas todos que envolvem a cadeia dessa indústria e que muitas vezes a gente faz vista grossa e releva. Tem exploração humana e ambiental pra caramba, assim como em outras áreas e indústrias. Eu fiz uns posts falando sobre isso e até um falando sobre o impacto ambiental da produção do algodão. Eu fiz o blog “Moda Sem Sacola” para explorar esse assunto e produzir conteúdo de moda sem deixar de lado essas questões. Eu queria falar de uma moda mais “legal”.

Aí hoje eu me peguei pensando: até que ponto tudo isso me incomoda? Até que ponto eu estou agindo sobre isso? Eu quero uma “moda sustentável”, mas eu não estou de fato mudando o meu comportamento para isso. Eu ainda consumo roupas de lojas de Fast Fashion, as mais acusadas de usar trabalho escravo. Eu não escolho o que eu compro pelo material do qual as roupas foram feitas (exceto pelo couro e pele animal, que eu não compro mesmo). E olha, eu sou consciente. Mas a moda que eu consumo ainda não é sustentável. Não tem moda sustentável: tem tentativas, caminhos, meios de consumo sustentáveis. Mas a produção que respeite os seres humanos e o meio ambiente em todas as suas etapas, desde o material do qual é feito o tecido, a forma como esse produto vai retornar ao meio ambiente depois de ser descartado pelo consumidor, é praticamente inexistente. Mesmo se for tudo perfeito até o consumidor final, quando saímos da questão material para a linguagem e como a moda é lida pela sociedade, entramos em uma série de outros problemas e questões que ainda não foram resolvidos. E eu tô aqui e essa mesma moda é o que eu amo, mesmo que muitas vezes não dê para defender. Eu quero discutir, quero descobrir novas possibilidades e acredito no potencial e importância que as roupas têm.

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Roupas do Brechó “Tem Estória Tem Memória”. Foto: Isabela Magalhães

Na segunda-feira, dia 1º, assisti a uma palestra excelente da Ana Cláudia Vidigal no espaço FO.CA. Lá, ela me deixou mais incomodada (e inspirada) ainda. Ela disse que todo mundo, sendo parte da produção ou sendo consumidor, precisa urgentemente pensar, refletir. Do contrário, não tem saída. Depois da palestra dela, o Luiz Octávio Gonçalves falou sobre o Design Thinking, contextualizando para a moda. No design thinking um dos principais pontos é a empatia, se colocar no lugar do outro. Isso aí não deve ser apenas para solucionar problemas no que diz respeito ao design dos produtos, tem que ser um pensamento levado pra vida. A empatia é um dos caminhos para a sustentabilidade sim, porque se a gente de fato se colocasse no lugar dos funcionários explorados pela indústria, por exemplo, não seríamos capazes de compactuar com esse cenário.

Pensar não é o suficiente. É aquela coisa: tô fazendo “coisa errada”, mas se estou consciente, tá tudo bem. Não está! Eu sei, tem muita coisa errada nesse mundo, e a cadeia da moda (e do consumo em geral) é mais uma das coisas que estão bagunçadas. A gente tem que mudar de postura, porque ficar apenas “incomodado”, não vai dar resultado nenhum, só vai te deixar com a consciência pesada mesmo. Vim aqui provocar vocês, na intenção de me provocar também. É muito confortável eu escrever esse texto de motivação aqui, desligar o computador e pronto, fiz minha parte. Quero sair dessa zona de conforto. Vamos juntos.

(Com todo meu amor e minha vergonha na cara depois de quase cinco meses. Não desistam de mim!)

 

A arte do encontro

Era uma segunda ou quarta-feira. Se encontraram em um café, sorveteria ou padaria com vasos de flor em cima das mesas. Pediram um chocolate quente ou um milk shake de chocolate branco. Prepararam uma peça digna de prêmio de festival.

No início eram só os dois no meio desse palco que você chama de mundo. Ao longo do processo, a história cresceu. Criaram coletivamente muitos momentos inesquecíveis e efêmeros como a arte. Não tinha direção certa e não planejaram o fim. O figurino foi feito com as linhas desfiadas de outras histórias. Costuraram com o máximo de cuidado possível. Compartilharam os guarda-roupas, cheios de memórias de duas jovens vidas inteiras. Se vestiram em abraços que diziam que daria tudo certo. Nos bastidores, ele disse que dividir o palco com ela era um sonho de longa data. Logo ela percebeu que esse sonho também era seu.

A primeira vez em que se viram foi no teatro, anos antes dos muitos roteiros que viveram. Os cenários mudaram, os sonhos também. Ela sabe que ainda tem muita coisa pra ser vista. Muita peça vai entrar e sair de cartaz. Mas a arte que afeta, vai sempre ser lembrada, com todo o carinho de quem já aplaudia muito antes das luzes se apagarem.

– Perdoa esse título clichê e obrigada por ter me encontrado. – Disse isso e tomou o último gole do milk shake, tão doce como foi aquele espetáculo.

Descombinação

Revirou o guarda-roupa, disse que não tinha nada para vestir, fez cara feia e decidiu ficar em casa. A cama ficou cheia de todas aquelas vestes que ela não tinha. Era noite de sexta-feira, mas ela escolheu não ir atrás de nenhuma das possibilidades de um fim de semana legal. Uma das blusas quase rasgou no meio da raiva. Tentou muitas combinações, mas sempre faltava alguma coisa. A mãe interferiu “e aquele meu vestido? Fica bom em você!”. Ficava bom ontem, hoje não. Ficaria desequilibrado com o contexto. Arrumado demais. Simples. Quando foi que comprei isso? Engoliu o choro. Antes de dormir, precisou arrumar a bagunça. Não tinha onde colocar tanta coisa sem lugar.

Precisava das gavetas, mas estavam quebradas. Era peso demais. “Eu sei que é muita coisa, mas não serve”. Servia, sim. As mesmas camisetas estampadas, a calça cor-de-rosa, o short preto de bolinhas brancas, e até aquele cropped que nunca encontrou ocasião. Só não funcionava mais. Não ali, pelo menos. Decidiu fazer doação. Prometeu ser mais organizada dali pra frente. Fim de ano é hora de mudar. Início de ano também. Fim de semana, por que não?

Disse que começaria uma fase nova. As blusas, que antes pendurava em cabides, decidiu dobrar em rolinhos. Quando estava tudo no jeito, colocou um sachê perfumado na única gaveta que ainda resistia. De repente, já era segunda-feira. Poetizou o início da semana, percebeu que todo final vem com um começo. Daquele dia em diante, ela passou a escolher as roupas pelos sapatos. Foi assim até o dia em que se irritou e disse que não tinha sapatos. Então viu que tinha roupas, e que todas estavam ótimas. Mas o sachê já tinha um cheiro diferente, de coisa velha, sabe? O aroma misturou com os tecidos. Precisou levar tudo pro tanque. Entrou no tanque. Lavou a alma. Depois de tanto se descombinar, decidiu se vestir de si mesma.

Ela estava nas cores

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Aventuras e experiências mudam a gente, nos fazem aprender, crescer, transcender. De um passeio diferente, voltamos com novidades na bagagem e talvez uma ou outra peça de roupa ou acessório que vai compor uma nova versão de nós mesmos. Nessa nova versão, não descartamos o que fomos um dia, mas somamos, testamos novas combinações. A nossa essência é aquilo que permanece, mesmo depois de muitas mudanças. É o que nossa alma continua gritando.

Ela gostava de camisetas estampadas e batons cintilantes, envolvendo um sorriso descomprometido que não precisava agradar ninguém para existir. Seu guarda-roupas era alegre, saias longas e floridas e muitos acessórios. Gostava de penteados: fazia um rabo de cavalo e prendia com um lenço, fazendo um nó que chamava a atenção por onde passava. Quando ele apareceu, ela estava assim, com os detalhes que exalavam não só sua personalidade, mas também suas histórias.

Um esmalte descascando entregava a correria que foi a última semana, emendando uma viagem na outra. Nem deu tempo de marcar salão. A pulseira da mão esquerda foi comprada há alguns dias, em uma barraquinha de rua. As sandálias, sem salto, são iguais às que sua cantora favorita gostava de usar. O lenço florido enfeitava os cabelos, como um grande e colorido laço. No primeiro mês, ele disse que não ligava pro esmalte descascando (afinal, ele nem gostava daquela cor).

Comprou um batom novo no segundo mês, mas decidiu guardar. Ele preferia um tom mais discreto. No terceiro mês, ela vendeu os ingressos do show da cantora favorita –  ele não gostava daquele ritmo. Em uma noite de domingo, depois que ele foi dormir, ela foi no banheiro e passou o batom novo. Era roxo e combinava com um de seus lenços. No dia seguinte, durante o almoço, ela usou um batom cor de boca, mas foi de lenço. Ele disse que ela ficaria mais elegante se tirasse o lenço da cabeça e o enrolasse no pescoço. Com o passar dos meses, as saias perderam as estampas e o volume do cabelo diminuiu: ele preferia escovado e sem as mechas azuis.

Ele era como uma das muitas aventuras que ela viveu. A diferença é que ao invés de colorir, ele a desbotava. Desbotar a essência de alguém é algo imperdoável. Interferir no colorido de uma pessoa é interferir em quem ela é. Isso se aplica aos sonhos que ela tem, à forma como sorri, às estampas que escolhe e até ao esmalte cor-de-rosa que ela gostava de usar.

Cultivando modinhas?

A moda é tão maluca que consegue influenciar até as plantas que a gente escolhe.

Admita: você também está apaixonado pelas suculentas e cactos.

Alguns dias atrás eu visitei uma feira de flores aqui em Juiz de Fora – a Feira de Flores de Holambra ❤ – e me vi maravilhada com uma parte específica: a mesa das suculentas e cactos (muitos vasinhos, muitos!). Depois de um tempão hipnotizada com aquelas belezinhas eu escolhi duas para levar para casa. Agora eu sou oficialmente parte da “geração Pinterest”.  Brincadeiras à parte, eu acho muito louco essa coisa de todo mundo começar a amar uma mesma coisa ao mesmo tempo. E não é como se a gente fizesse de propósito, poxa, eu gostei de verdade das plantinhas. Mas a grande questão é: por quanto tempo eu fui seduzida até começar a amar essas coisinhas? Elas dominaram a internet e principalmente o Pinterest e o Instagram.

Claro, muita gente já gostava dessas plantas bem antes de se tornarem moda, até por serem mais fáceis de cuidar e, de fato, lindas. Mas acontece que agora elas estão mais presentes do que nunca, em todo lugar: Além de serem item indispensável nas decorações mais descoladas, os cactos e as suculentas viraram estampa de camiseta, patches, tatuagem, chaveiro, capinha de celular, quadro, caneca, luminária, caixinha… O fenômeno estourou no ano passado, mas segue firme e forte, enfeitando toda a internet.

Moda é isso aí: a gente pode até fugir, se fazer de diferentão, mas quando menos esperamos o bichinho da tendência nos morde. E não dá pra negar: todo mundo está sujeito. A questão é não sair consumindo loucamente tudo que nos é “imposto”, ou deixar se levar com a onda e depois se arrepender. Por exemplo: comprei as suculentas, ok. Agora é minha responsabilidade cuidar delas, mesmo se a modinha passar*. Da mesma forma, antes de comprar qualquer coisa que está “em alta”, precisamos reconhecer que é uma tendência e que pode sim ser um amor passageiro – a plantinha pode até morrer (pode não, tá?) mas as roupas e outros objetos vão ficar um tempão existindo no mundo  – então, pode amar tudo o que você quiser amar, mas saiba que pode ser uma cilada (eu juro que isso não é uma metáfora, hehe) . Se o que está na moda se encaixa com o seu estilo e a sua personalidade, o risco da cilada é menor, afinal, você tem a chance de adquirir algo que vai gostar por mais tempo.  

Não tem problema em cultivar modinhas, isso sempre aconteceu e vai continuar acontecendo. Deixo apenas a reflexão: até que ponto a moda influencia os nossos gostos?

(E sim, elas são lindas mesmo, eu sei…)

Para quem foi influenciado por esse post:

* Dicas de como cuidar das suas plantinhas: aqui, aqui e aqui!

Obrigada pela visita ❤

Roupa e Memória: Saudade em poliéster

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Eu me sinto desconfortável com aquela blusa. Não é por causa do caimento e, pra ser sincera, a modelagem fica até folgada em mim. Não é também por causa do decote, das alças que ficam caindo toda hora, e nem é culpa do tecido, que é bem transparente. Não me sinto desconfortável com o material sintético, que pode esquentar mais que o desejado. Eu me sinto desconfortável com a carga emocional que aquela blusa tem pra mim.

A memória fica guardada em lugares simples e inesperados. No dia em que comprei essa roupa, eu estava buscando algo básico para o dia-a-dia. Só isso, nada de grandes significados. Nenhuma ocasião especial. 19,90, se me recordo bem. Na mesma arara haviam outras vinte blusas iguaizinhas. Acontece que na primeira vez em que eu a vesti, uma amiga parecia encantada: “É minha, essa estampa é muito minha!”, acompanhados de “Ela é tão linda, vou roubar pra mim”. Toda vez era assim. Eu já colocava a blusa esperando esses comentários. Realmente, combinava com ela.

O tempo passou e muita coisa aconteceu. Hoje essa pessoa tem uma roupa que é muito minha também (eu tenho exatamente o mesmo modelo) mas eu não vou contar isso pra ela. E ela não diz mais nada quando me vê com aquela blusa. Existem rasgos que nem o melhor dos alfaiates consegue remendar. Faz parte da vida, algumas coisas não são para sempre.  Mas o fato é que a roupa se tornou uma lembrança daquela amizade.

Eu já pensei em me desfazer da peça. Separei para doação algumas vezes e em seguida guardei novamente. Eu gosto dela. Fica bem em mim. Pensei em esquecer, afinal, “não faz sentido uma roupa ter tanta carga emocional” – espera, faz sim. Tem um sentimento bordado naquele tecido.  Vários momentos estão abrigados ali: da gargalhada às lágrimas. Deixo pra lá, o desconforto passa. Fecho o guarda-roupas. Aos poucos, saudade é costurada.

Desfile: XIV Sonhos e Devaneios

É muito bonito acompanhar o crescimento de um curso, e, mais ainda, visualizar sonhos se concretizarem na forma de roupas e acessórios. Assim são os desfiles “Sonhos e Devaneios” para mim. O evento de conclusão de semestre e curso das turmas de Design de Moda do CES JF acontece duas vezes ao ano, e, de quatorze edições, eu tive a felicidade de estar presente em nove.

Aqui, eu conto um pouquinho sobre cada parte do XIV Sonhos e Devaneios, que aconteceu no sábado passado, dia 2 de julho, no Campus Academia.

❤ De volta à casa

Depois de três anos no estacionamento do Independência Shopping, o evento retornou ao Campus Academia, com uma novidade especial: paralelo ao desfile, rolou um Show Room com algumas marcas dos alunos e ex-alunos. Uma ótima oportunidade para conhecer de perto quem está fazendo a moda acontecer em Juiz de Fora ❤

O novo local possibilitou uma estrutura mais confortável para a plateia. Além disso, a iluminação favoreceu ainda mais os detalhes das peças desfiladas. O cenário era simples, apenas as luzes e a passarela, que dessa vez foi montada no formato “T”, aumentando o percurso das modelos. A duração do evento foi maior devido à esse aumento do percurso, somado aos vídeos de introdução de cada parte do desfile. Antes dos desfiles do primeiro, terceiro e quinto período, o telão exibia entrevistas com os professores do curso, que explicaram um pouco sobre o processo de criação dos projetos.

❤ Moda e gênero

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Uma das questões levantadas pelo “XIV Sonhos e Devaneios” foi o debate sobre moda e gênero, que vem ganhando cada vez mais força nos últimos tempos. O vídeo de abertura apresentou o artista Nino,  perfomando a Drag Queen. A introdução do tema foi feita um mês antes do evento, no lançamento da campanha de divulgação do desfile, e quando alunos e ex alunos assistiram ao Documentário “Femmenino”, que mostra a cena Drag Juiz Forana, e, em seguida, participaram de um bate-papo sobre o assunto.

Nino fez participações no evento, entregando o prêmio Marcelo Mostaro e desfilando na passarela ao final da ocasião.

 

❤ Primeiro desfile:

o primeiro desfile, “Desconstruções Estéticas de Picasso e Pugh” abordou os temas: Pablo Picasso e o designer Gareth Pugh. Os alunos do primeiro período desenvolveram as peças em algodão cru, e o tecido foi tingido, bordado e estampado por eles.

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O primeiro período é a fase em que os estudantes são motivados a soltar a criatividade, de todas as formas possíveis. O desfile é mais conceitual, e, apesar das peças serem desenvolvidas por designers iniciantes, é rico em beleza e capricho.

❤ Segundo desfile:

Com o tema “Loucura Glam”, o segundo desfile apresentou peças feitas com malha. As estampas presentes nas peças foram selecionadas entre diversas estampas que os alunos desenvolveram no período. No vídeo introdutório, foi destacado que o terceiro período, que corresponde o terceiro desfile, é crucial para os alunos, por ser o momento em que eles desenvolvem sua marca, que será usada nos próximos períodos e no TCC. Assim, cada um procura colocar sua “identidade” de marca na passarela.

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❤ Novos designers: as mini coleções de conclusão de curso

A última parte dos “Sonhos e Devaneios” é guardada para os formandos. Os vinte(!!!!) novos Designers desfilaram suas mini-coleções, cada uma com cinco looks.

Os temas desse semestre estavam super variados, e entre as novidades que chamaram a atenção estavam os trabalhos de elaboração de figurino.

A designer Ághata de Freitas Coutinho trouxe uma reconstrução do figurino do “Cortejo: Sonho de Uma Noite de Verão”, da Cia. Academia, na coleção intitulada: “Quando Shakespeare se veste para um cortejo mineiro: Um diálogo entre designer e ator”. O momento foi de muita descontração e aplausos animados: O elenco participou do desfile, cantando algumas canções do Cortejo.

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Maria Andreza Barbosa apresentou uma coleção de lingerie: “Entre rabiscos e guitarras: A década de 1950 sob o olhar da rebeldia”.

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Inspirada no universo de Alice no País das Maravilhas e na Op Art, Larissa Almeida de Oliveira elaborou uma coleção ousada e colorida, com estampas e bordados que remetem aos efeitos das drogas alucinógenas.

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Dono dos flashes mais badalados do mundo da moda atual, o fotógrafo Mário Testino foi uma das referências para a coleção de Gabriela dos Santos Rodrigues, que elaborou a coleção “Olhares sobre Grace Coddinton e Mario Testino: A produção de moda no contexto da imagem revelado”.

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O momento romântico ficou por conta da designer Rachel Cruz e Silva, que se inspirou no clássico “A Bela e a Fera”e arrancou muitos suspiros da platéia. ❤ ❤

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O grande destaque da noite foi o trabalho da aluna Mariana Ferreira, a coleção “O artesão revisitado: No luxo de Denner Pamplona e na originalidade da Oficina de Agosto”. Mariana ganhou o Prêmio Arpel, e sua coleção ficará exposta na vitrine da loja por uma semana.

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Fiz muitas outras fotos no evento, e sem dúvidas teve muito mais coisa legal além do que comentei aqui. Mas, para o post não ficar tãaao extenso, deixei todas as outras fotos no meu Flickr. >  Veja tudo aqui!

No final do ano tem mais, e eu recomendo que todos aproveitem a oportunidade de prestigiar os “Sonhos e Devaneios” e de se inspirar na criatividade desses novos designers. ❤

Obrigada pela visita!

 

 

Sair do quadrado é preciso

Esse post está bem atrasado, mas eu precisava escrevê-lo com carinho.  Em abril passado, entrevistei um amigo que iniciou um projeto pessoal muito bacana. “Saia do Quadrado” é o nome que Arthur Bozzon escolheu para sua ação: passar uma semana inteira usando roupas de estilos diferentes, fugindo do “padrão” ou usando peças que ele não usaria no dia-a-dia. E convidou mais pessoas para fazerem o mesmo.

Entre os dias 25 e 29 de abril, ele, que é estudante de engenharia, fez de seu Facebook uma espécie de “Diário” onde postava os looks, relatando como foi a experiência, a reação das pessoas e suas sensações ao usar cada roupa. Essa não foi a primeira “edição” do projeto. No início do ano, ele decidiu ir de saia para a faculdade durante uma semana. “Meu objetivo foi simplesmente quebrar o paradigma de que você tem que ser de determinada forma dependendo do que você quer fazer. As pessoas devem nos olhar e gostar de quem somos, independente de como nos vestimos”, disse.

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“Decidi iniciar o #saiadoquadrado com o visual Funk, por ser um dos mais criticados pelos meus amigos.”
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“Hoje no 2º dia de projeto, tentei homenagear a tribo otakus. (…)Várias pessoas pediram pra tirar foto comigo. Embora eu tenha chamado a atenção, a ideia passou adiante.”
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Em seu Facebook, Arthur fez relatos diários sobre a experiência de usar as roupas, que não são do seu estilo habitual.

Arthur veio de São Paulo para Juiz de Fora há alguns anos e contou que, ao chegar na cidade, reparou uma intolerância da população com relação ao modo de vestir das pessoas – “Sinto olhares tortos apenas por andar de chinelo”. A partir disso ele tomou a iniciativa do projeto, convidando todos a romperem alguns “padrões” da vestimenta. “Quando usei saias, muita gente questionou, perguntou se era alguma religião. Outros pareciam se interessar, as meninas levavam mais na brincadeira.”

Na edição de abril, cerca de dez pessoas embarcaram no “Saia do Quadrado”. Pessoas que inovaram o visual de alguma forma. Isabelly Coelho foi uma delas. Ela se sentiu motivada a usar seus vestidos longos e estampados e a assumir elementos da cultura negra em seu visual, como o turbante.

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Arthur e Isabelly

No dia em que nos encontramos, Arthur usava uma blusa com estampa de inspiração indiana, calça estampada e sandálias. Segundo ele, era o dia com o tema “Hippie brasileiro”. Regras e definições à parte, o mais interessante no projeto não eram as roupas que ele usava, mas sim a atitude de usá-las. A escolha de romper a rotina do vestir, se propor a encarar o novo e passar pela experiência de brincar de ser uma pessoa diferente a cada visual. Da mesma forma, é uma forma de encorajamento: vamos usar o que queremos usar, e comunicar nossas ideias por meio dos cortes, tecidos, estampas e acessórios. Por mais que por dentro possamos ser os mesmos, as roupas que vestimos produzem significados e transmitem diferentes mensagens.

Por fim, fica o conselho: Sair do quadrado faz bem e é necessário.