Ela estava nas cores

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Aventuras e experiências mudam a gente, nos fazem aprender, crescer, transcender. De um passeio diferente, voltamos com novidades na bagagem e talvez uma ou outra peça de roupa ou acessório que vai compor uma nova versão de nós mesmos. Nessa nova versão, não descartamos o que fomos um dia, mas somamos, testamos novas combinações. A nossa essência é aquilo que permanece, mesmo depois de muitas mudanças. É o que nossa alma continua gritando.

Ela gostava de camisetas estampadas e batons cintilantes, envolvendo um sorriso descomprometido que não precisava agradar ninguém para existir. Seu guarda-roupas era alegre, saias longas e floridas e muitos acessórios. Gostava de penteados: fazia um rabo de cavalo e prendia com um lenço, fazendo um nó que chamava a atenção por onde passava. Quando ele apareceu, ela estava assim, com os detalhes que exalavam não só sua personalidade, mas também suas histórias.

Um esmalte descascando entregava a correria que foi a última semana, emendando uma viagem na outra. Nem deu tempo de marcar salão. A pulseira da mão esquerda foi comprada há alguns dias, em uma barraquinha de rua. As sandálias, sem salto, são iguais às que sua cantora favorita gostava de usar. O lenço florido enfeitava os cabelos, como um grande e colorido laço. No primeiro mês, ele disse que não ligava pro esmalte descascando (afinal, ele nem gostava daquela cor).

Comprou um batom novo no segundo mês, mas decidiu guardar. Ele preferia um tom mais discreto. No terceiro mês, ela vendeu os ingressos do show da cantora favorita –  ele não gostava daquele ritmo. Em uma noite de domingo, depois que ele foi dormir, ela foi no banheiro e passou o batom novo. Era roxo e combinava com um de seus lenços. No dia seguinte, durante o almoço, ela usou um batom cor de boca, mas foi de lenço. Ele disse que ela ficaria mais elegante se tirasse o lenço da cabeça e o enrolasse no pescoço. Com o passar dos meses, as saias perderam as estampas e o volume do cabelo diminuiu: ele preferia escovado e sem as mechas azuis.

Ele era como uma das muitas aventuras que ela viveu. A diferença é que ao invés de colorir, ele a desbotava. Desbotar a essência de alguém é algo imperdoável. Interferir no colorido de uma pessoa é interferir em quem ela é. Isso se aplica aos sonhos que ela tem, à forma como sorri, às estampas que escolhe e até ao esmalte cor-de-rosa que ela gostava de usar.

Roupa e Memória: Azul da cor do céu

Eu fui uma criança encantada por contos de fadas, histórias de princesa e fantasia. Desde sempre brinquei de fazer teatrinhos em casa, e minha imaginação estava a todo o tempo trabalhando intensamente. Na “formatura” do terceiro período do pré, as professoras tias deram um livro para cada aluno. O meu foi o “Pele de Asno”, que é um conto bem famoso do Charles Perrault.

A história é bem triste, na verdade. Tem um rei muito rico, que é dono de um Asno mágico. A esposa dele faleceu e o fez prometer que só se casaria com uma mulher que fosse igualmente bonita. Então ele descobriu que a única mulher que tinha uma beleza equivalente à da esposa era a sua própria filha (!!!). A filha foi consultar a fada madrinha, que a aconselhou a fazer várias exigências, para tentar fugir do casamento. Um vestido da cor do céu, outro da cor da lua, outro tão brilhante quanto o sol, e a pele do asno mágico. A princesa usou a pele como disfarce e fugiu, passando a ser conhecida como “Pele de asno”. Trabalhava disfarçada em um engenho e, em dias festivos, usava seus vestidos elegantes. Em um desses dias, um príncipe a viu e se encantou com sua beleza, se apaixonando no mesmo momento. Depois eles se casaram, o pai da menina se casou com uma viúva, todo mundo viveu feliz para sempre.

Em um momento do livro a “Pele de Asno” usa um vestido tão bonito que eu desejei um igual assim que vi a ilustração. Acredito que foi ali que a minha relação com a roupa e a moda foi aflorada. Pedi para a Vovó Francisca e fomos logo procurar uma pessoa para transformar meu desejo em realidade – será minha avó a fada madrinha? Ou foi a costureira?

Escolhemos os mesmos tecidos da ilustração do livro – pelo menos para mim, eram exatamente iguais. Eu fui bem exigente: chequei todos os detalhes e bordados. Foi a primeira vez em que eu vi um vestido sair do papel, e foi mágico. Em pouco tempo, eu já estava rodando por aí com aquela peça, que certamente foi feita com alguns “bipt bopt bum“. Diferente da princesa do livro, meu “disfarce” era o vestido. Eu não fugi de casa, mas, como em um conto de fadas, cada vez que eu vestia, era transportada para um mundo diferente. É de cetim azul da cor do céu, com uma capa cor-de-rosa, flores e renda. Fiz grandes espetáculos teatrais com ele,  convocando a família toda para assistir. É estranho perceber que a roupa já não cabe mais em mim, mas, ao mesmo tempo, ainda me representa: não tenho mais a ambição de ser uma princesa, mas a menina sonhadora ainda está aqui,  ainda ama teatro e usa algumas “peles de asno” de vez em quando – afinal, a moda também é uma forma de se disfarçar.